Excerpt for Manual de Trigonometria Aplicada by Victor Domingos, available in its entirety at Smashwords


Manual de Trigonometria Aplicada


Published by Victor Domingos at Smashwords


Obra premiada no

Concurso Literário “Ecos da Memória”


Copyright 2011 Victor Domingos

www.victordomingos.com


1ª Edição: Autores de Braga, 2002



Smashwords Edition, License Notes


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Índice


Dedicatória

Manual de Trigonometria Aplicada

Sobre o autor

Leia também, do mesmo autor




Dedicatória



à minha família e a todos aqueles

de quem falam os meus pensamentos




Manual de Trigonometria Aplicada



Bairro da Sé, 13 de outubro de 1996


Caro João David:


É grande a distância que nos separa. Tão grande, que me não é possível conhecer notícias suas à hora em que lhe escrevo (dez da manhã, o sol entra pela janela adentro). Sei contudo, ou quero acreditar que sei, que há de você receber as notícias que ora lhe envio. Não que tenham muito para lhe contar, porque certamente o não têm, mas porque encurtam esta distância que chega por vezes a doer.

Saiba que é dura a minha existência. Houve em tempos quem vendesse a loucura, quem a aplaudisse, e houve também quem a queimasse viva. Assim também me parecem os meus dias, umas vezes nos ombros da multidão em êxtase, outras vezes nos ombros da madeira em chamas.

Mas sabe algo? Tenho a leve impressão de que tudo isto faz sentido, de que tudo isto tem um caminho certo. E, apesar de saber que eu pareço tudo menos uma pessoa normal, sei que o meu tempo tem um significado que transcende os limites habituais do universo. Como se hoje fosse amanhã, e como se amanhã fosse sempre nunca às vezes.

E é por isso que eu resolvi que quero ser papa. Acredite que eu sei que o meu destino chama, com uma voz terna, o meu nome sílaba a sílaba. E nem queira saber como isso nos move cá dentro!

Tenho em mim uma grande febre de correr correr correr e fundir estas minhas ideias comigo no que sou em si! Será algum dia possível, tida a distância que nos separa? Logo se verá.

Queira aceitar os mais cordiais cumprimentos que aqui vão, e sorria em resposta, já que mais não pode ser.



* * *



A escola, àquela hora da manhã, reveste-se de um silêncio místico, e as aves que pousam na rede lembram pequenos pedaços de pão nos jardins da cidade. O cimento já quente dos primeiros raios de luz. Ao fundo, longe, um pequenito ajoelha-se com as mãos no chão e prepara a jogada seguinte do seu berlinde solitário. Os carros, em cima, vão quebrando o segredo irreal em que tudo parece mergulhado. O pequeno levanta-se, muda de posição e ajoelha-se de novo, fitando com olhar inteligente as pequeninas esferas que tem perante si. Num gesto mágico, toca numa delas e fica a observar atentamente toda a nova situação que agora se lhe depara. O ritual tem uma beleza cândida, que se vai repetindo ao ritmo compassado das esferas. Agora esta... agora aquela... agora esta... agora aquela...

Ouve-se de repente uma gritaria que vem de trás e que parece anunciar a proximidade de uma guerra. Mas não... são apenas leigos que acabam de sair de uma sala ali ao lado. A cerimónia, no entanto, depressa é interrompida, e o rapaz com os seus berlindes rapidamente é substituído por dez pares de botas em constante correria. O jogo de futebol, ruidoso, não permite que o rapaz recolha criteriosamente cada um dos seus berlindes. A situação não se compadece. O pó, a areia e as solas acabam por dissipar do olhar tenro os pequenos objetos de culto. (Vá!, não sejas maricas! Sai daqui, deixa mas é jogar!...) Duas lágrimas abafadas por um golo vibrante, e o pequeno afasta-se com apenas um berlinde esverdeado na sua mão direita.



* * *



Estava na moda ser-se do contra. E ser-se do contra implicava naquele ano vestir roupas excêntricas e participar em rituais satânicos. Quem cumpria estes requisitos, pertencia à elite. Quem não cumpria, não pertencia. E, nesse ano, era perfeitamente visível a distinção entre essa elite e a massa anónima. Onde quer que estivesse a elite, respirava-se um cheiro vagamente semelhante a tabaco e todos vestiam panos de cores e feitios descomunais, numa atitude de clara irreverência. Onde não estava a elite, as conversas eram muito mais abertas, o cheiro era o do reles cigarro amarelo e branco e as roupas não varriam o chão. Havia pequenos grupos a conversar ou a jogar damas, e foi nesse ambiente calmo e aparentemente acolhedor que a conversa fluiu. (Desagrada-me a forma como as coisas vão acontecendo no mundo.) Era bom poder ter aquelas conversas agradáveis com os colegas. (Anda tudo a querer mostrar que é isto ou aquilo... “eu sou ganza!”, “eu sou bunker!”, “eu sou dos bons velhos hippies...”. E para quê?, para vestir isto ou aquilo que os outros acham bem ou mal?, para fumar isto ou aquilo que ninguém saber ao certo o que é?... para quê?) Sim, era bom, sem dúvida. Nada como ter uns bons ouvidos mais ou menos atentos a quem propor uma verdade opinativa qualquer... (E é por isso que eu quero ser papa.) (Papa?) (Sim, papa. Deixem morrer o que lá anda, e eu que tome o lugar dele.) (Olha-me este... “Papa”! Quem é que quer saber do Papa para alguma coisa?) Claro que, de vez em quando, era difícil conseguir manter a reflexão por muito tempo, mas era sempre um novo desafio. (Eu quero saber. Aliás, acho que o mundo estava mais ou menos salvo se toda a gente se tornasse papa.) (...mais ou menos?) (Pois..., depois só faltava era alguém para trabalhar. Mas pelo menos deixavam de andar todos para aí à procura de roupa diferente..., e deixava de haver guerras.) (Não tens juízo.) Não tinha juízo... E daí, talvez até fosse mesmo isso: talvez não tivesse juízo. Mas tinha piada não ter juízo de vez em quando. (Pois não, não tenho.) Risos. Este era o lado bom. Não havia imposições. Não era preciso cortar os braços nem fazer tatuagens. O lado mau era que todos pareciam demasiado conformistas e pouco criativos, e talvez isso fosse contagioso.



* * *




Sé, 16 de junho de 2001


João David:


Uma parte de mim anseia pelo nosso reencontro. A outra parte não tem a certeza... Não sei, nesta altura, se aquilo que hoje sou traiu de alguma forma aquilo que outrora deixei escrito. Desejei a perfeição e prometi a mim mesmo cumprir quanto te escrevia. A verdade é que hoje em dia vou constatando que pouco daquilo que eu jurava se pode tornar concreto.

E agora eu não sei se, quando finalmente vier a te encontrar, serei ainda capaz de te reconhecer na pessoa que te conheci em mim. Tanta coisa mudou!... (Até já comecei a tratar-te por tu!..., reparo agora.)

A minha vida feita num oito retorcido não sabe para onde se há de virar. A um lado, aquilo que tu representas ou representaste... aquilo que tens representado para mim. A outro lado, aquilo que hoje me julgo e cuja incerteza me leva a vacilar entre a lealdade que sinto dever-te e a vontade de partir. Pudesses tu agora estar presente, e tudo seria bem mais simples.


Um abraço. (Nunca mais deste notícias...)



* * *



(Tens de ser um homem! Não podes ser maricas a vida toda...) Os bares tinham um quê de mistério e de audácia. Havia uma ou duas horas desocupadas – ou que não houvesse, desocupava-se e pronto! –, e lá se entrava pelo Charme Bar adentro, rumo àquela cave despreocupada. O ar enevoado, algumas mesas apinhadas de copos, o constante fluxo das pessoas que iam e vinham... (Anda lá, mang!) A vibração ritmada das paredes e dos tímpanos, ao correr do batuque, bum bum bum bum!... e no final do copo, levantar, dar um passeio rápido pela zona da Amieira. Era então intensa a agitação do grupo. Metade dos que ali iam nunca lá haviam andado antes. Era o esvaziar repentino da semanada... era o medo de falhar, era mesmo o nojo pelo aspeto degradado daquelas mulheres que aparentavam os quarenta e tais... Não, não havia escolha possível. Era pegar ou largar. Ser homem alguma vez na vida ou admitir a derrota.

Um lugar recolhido, a frieza de um rosto de expressão forçada, dois dentes podres a sorrir de forma amarelada junto a um olhar triste e enfadado... Uma vaga vontade de vomitar. (Que se passa, jovem? Mas então que raio de macho és tu?)

E no fim de nada, três notas azuis deitadas ao vento.

O regresso. (Então, como correu?) Há coisas que não se dizem. (Correu bem...) Há coisas que não se podem dizer. (Correu bem, como?...)

Súbita mudança de conversa, oportunamente motivada por um encontro casual com o diretor do colégio. (Chiu!... Olha quem vem ali.)

E o regresso a casa, de carteira leve e com aquele hálito nauseabundo da Amieira ainda bem marcado na memória.



* * *



Ser engenheiro. Ser engenheiro e namorar com muitas mulheres novas e bonitas. E possuir cada uma delas, jogar o ping-pong da sedução. (Olá, meu amor... Hm... Como estás bonita hoje!) O bar, a discoteca, o cinema, a cama. O adeus. Ser engenheiro. Ser um homem.

Entretanto, a tropa. (Soldado, heh!) Dias e dias e dias a engraxar botas e a limpar espingardas... (Soldado, apanhe as pontas dos cigarros.) A instituição total. Cérebros convertidos em músculos. (Soldado!, meu grandessíssimo cabrão! Ora então foi você que entrou atrasado!) Uns e outros. Os bons e os maus. Doutores, engenheiros, e sargentos e capitães, e os escravos a plebe o lixo e as beatas que apareciam pelo chão. (Soldado, apanhe as pontas dos cigarros.) O verão. O país em chamas. Os bombeiros ao som das sirenes, com o quartel a cair de velho. (Soldado, heh!) Hora de tocar a alvorada no clarim, taaaaa-ta-taaaaa! taaaaa-ta-taaaaa! taaaaata-tata-tata-taaaaa!... (Soldado, apanhe as pontas dos cigarros.) Limpar a espingarda. Polir as botas. Varrer o chão. Marchar marchar marchar. Correr correr correr. Ir à tropa. Ser um homem.

Regressar a lado nenhum, para os braços de ninguém. Pelo menos, em casa, um pai e uma mãe, sempre de portas abertas. Dia após dia após dia. Nascer o sol... pôr-se o sol... nascer o sol... pôr-se o sol...



* * *



5 de setembro de 2005


João David


Há acontecimentos importantes a cada instante. Não há minutos perdidos. Uma cerveja pode valer três golos seguidos. Basta estar lá e marcar. E como diz o Sérgio, nada como viver a vida nos limites. É a única forma de valer a pena.

Não faço ideia se algum dia virei realmente a reencontrar-te. Cada vez me parece mais remota essa hipótese. Mas... quem sabe?, não é mesmo?...



* * *



Flores! E um sorriso sedutor. Olhar meigamente comedido, o número de telefone. Ligar?, mas não seria já isso um sim involuntário? Não ligar?, mas... e...?

Flores. Cartão com dedicatória. (“Para alguém muito muito especial”) O coração, o fôlego, o devaneio. Flores?


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