Excerpt for Destilado de Cérebro de Zumbi by Rynaldo Papoy, available in its entirety at Smashwords

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DESTILADO DE CÉREBRO DE ZUMBI


autor: Rynaldo Papoy


DESTILADO DE CÉREBRO DE ZUMBI


Método desenvolvido pelo paulista Joel Caetano.


INGREDIENTES


10 kg de cérebro de zumbi in natura [quanto mais envelhecido, maior o teor alcoólico] para 1 litro de destilado [observação: evitar cérebros de zumbis de pessoas que utilizavam medicamentos psiquiátricos ou drogas].

100 gramas de fermento sacharomices e 1 kg de cevada.

100 litros de água.

50 ml de saliva de zumbi.


MODO DE PREPARO


Ferver os ingredientes do mosto a 100 graus por 10 dias.

Se preferir um destilado mais suave, destile o cérebro de zumbi por mais duas vezes.

Acrescente 10g de cocô de bebê zumbi [com até 30 dias de “vida”], sementes de cacau e espinhos de pequi.

Deixe envelhecer em barris de pau-brasil por, no mínimo, quatro anos.

O destilado deve ser tomado puro, de preferência gelado, num copo tipo “shot”.


CURIOSIDADES:


- Joel Caetano leiloou na Inglaterra o “Super Old Special Zombie Caetano”, produzido com cérebros de zumbis que tinham entre 90 e 120 dias de existência, produzindo o mais poderoso Destilado de Cérebro de Zumbi do mundo, cujas garrafas chegaram a mais de 10 mil euros e teor alcoólico de 97°.

- Está fazendo muito sucesso entre os jovens, nas baladas, o Ice Zombie, produzido nos EUA, que possui 75% de suco de cramberry.

- O produtor espanhol Miguel Angel Vivas produz blendeds de destilados de cérebro de zumbis que fazem muito sucesso em baladas da Europa, onde são tomados on-the-rocks ou no preparo de coquetéis.

- O mais consumido coquetel com Destilado de Cérebro de Zumbi em Nova Iorque chama-se “Britney Spears”. Os ingredientes são 50 ml de Caetano ou Vivas, uvas passas amassadas com sêmen de cavalo e açúcar ou adoçante, angostura e completado com club soda.

- Nas baladas mais populares das periferias brasileiras faz muito sucesso um destilado de cérebro de zumbi clandestino, cuja dose custa apenas R$ 2,00, mas como o sabor é terrível, o pessoal costuma fazer caipirinhas dos mesmos ou simplesmente mistura com tubaína. A polícia suspeita que estes destilados clandestinos são produzidos com zumbis cultivados especialmente para o preparo da bebida.

- Há uma informação não-confirmada de que os russos estariam tentando produzir o destilado com cérebros de esturjão transformados em zumbis. Mas o Professor Johann Schlinder, da Universidade de Munique, especialista em zumbis, garante não haver provas da existência de zumbis não-humanos.

- Devido à queda nas vendas de uísques no mundo inteiro, graças às altas vendagens do Destilado de Cérebro de Zumbi, a Jack Daniels está criando a Zombie Jack, um destilado de milho e cérebro de zumbi.

- O Ministério da Tequila do México ofereceu R$ 30 milhões de dólares para quem conseguir desenvolver uma espécie zumbi do verme do mescal.


Mais detalhes em:


Sobre o destilado:


“A Origem, Produção e Comercialização do Destilado de Cérebro de Zumbi”, de Valdir Medori ou “Destilado de Cérebro de Zumbi, Mais Uma Invenção Brasileira que Conquistou o Mundo”, publicado pelo Ministério da Agricultura do Brasil.

Sobre zumbis:

“Metabolische Aspekte der Umwandlung der Männer in den Zombien”, por Professor Johann Schlinder, ainda sem tradução em português.



ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA


- Posso deixar minha filha com você?

Era Ganemélia. Mineira. De Nanuque.

Veio para São Paulo e era garçonete. Teve uma filha mas não se lembrava com quem. Num período de muitos relacionamentos. Um deles era o pai mas ela não iria pedir DNA de oito homens. E eram todos muito parecidos, a pequena Júlia não se parecia com nenhum e com todos, ao mesmo tempo.

Ganemélia trabalhava de terça a domingo. Sua filha ficava com sua prima, no Jardim Palmira.

Era uma segunda. A agência telefonou e solicitou Ganemélia com urgência para uma festa. R$ 50,00. Era dinheiro. Ligou na casa da prima Jandorina, mas só deu caixa postal. Deveria estar na igreja, possuída pelo demônio, como sempre.

Seu vizinho à esquerda era um homem muito decente. Morava sozinho, só usava terno [sempre o mesmo] e freqüentava a Igreja de São José, no Jardim Paulista. Católico carismático. Tinha uma banca de livros usados, no centro de Guarulhos.

Quem mais, no Jardim Betel, tomaria conta de Júlia, cinco anos?

- Claro, claro, vá com Deus. – respondeu Seu Rosalvo, pegando Júlia no colo, por cima do muro.

Ganemélia só retornaria pela manhã. Festa na Vila Olímpia, em São Paulo.


Rosalvo e Júlia assistiam ao Jornal Nacional.

Quieta, delicada, com uma bonequinha no colo.

Rosalvo começou com um beijinho em seus cabelos.

Colocou Júlia em seu colo e passou a mão em suas pernas.

Levantou seu vestidinho vermelho e contemplou sua calcinha rosa cheia de ursinhos.

Rosalvo retirou cuidadosamente a calcinha de Júlia e mais suavemente ainda passou os dedos nas carninhas tenras da pequena vulva da menina.

- Tá fazendo cosquinha. – ela protestou.

Rosalvo deitou Júlia no sofá, abriu suas pernas e lambeu o inocente órgão sexual da menina até mais de 1 h da manhã. E ela havia dormido por volta das dez horas.


Pela manhã, Ganemélia chegou, arrasada de cansaço, como sempre e R$ 50,00 mais rica. Ou R$ 40,00, descontando o dinheiro da condução, paga por ela mesma.

Bateu palmas no portão do Seu Rosalvo.

Ninguém respondeu.

Entrou. Bateu na porta. Nada.


A polícia chegou às 7h14m.

Arrombaram a porta.

Quando Ganemélia viu Júlia, desmaiou.

Sobre o sofá, nua, coberta de sangue, com um enorme orifício no lugar da pequena vagina.


Rosalvo foi preso no Terminal Rodoviário do Tietê, quando pegava o ônibus para o Acre. Mas ela era paulistano e não conhecia ninguém lá. Só queria fugir para bem longe.

Foi condenado a 30 anos de prisão por homicídio doloso, lesão corporal dolosa e estupro, com todos os agravantes.

Após uma tentativa de suicídio, ingerindo inseticida, Ganemélia passou a freqüentar um ambulatório de saúde mental, três vezes por semana e tomar um tarja preta.

Mas ela queria mesmo era voltar para Nanuque.


Quanto a Rosalvo, ma Penitenciária de Guarulhos, masturbava-se lembrando da xoxotinha da maravilhosinha Júlia.

Só lamentava tê-la matado. Queria tê-la deixado viva para chupar sua bocetinha mais vezes e só fodê-la quando chegasse à adolescência, assim lá pelos 12 anos.

Por enquanto e pelos próximos 30 anos, teria que se acostumar a lamber outros órgãos e sofrer em si próprio o que fez a menininha sofrer.

Sem falar nas porradas e na solidão eterna.


BODAS DE MERDA




Um casal de velhos sentados numa varanda.

Sente-se um terrível fedor de merda.

A velha olha para o velho e pergunta:

- Meu velho, fui eu ou foi tu que cagou nas calças?

O velho olha para ela e responde:

- Tanto faz, minha velha...


BRUNHILDO


Brunhildo. Este era o nome dele, que tomou uma decisão. Iria matar alguém naquele domingo de manhã.

A coisa começou de repente, por volta da meia-noite. Uma irresistível, incontrolável vontade de matar uma pessoa, sem que encontrasse origem alguma para esta vontade.

Não sentia qualquer obstáculo ético, remorso, pecado, pena ou nojo. Iria enfiar a faca em alguém, pois era a única arma que possuía. Pensando bem, também poderia usar as mãos, mas talvez as mãos não fossem suficientes.

Não estava preocupado com o depois. Se fosse preso ou condenado espiritualmente, por Deus ou coisa parecida, nada disso lhe causava a menor objeção em seu plano de retirar a vida de uma pessoa naquele domingo de manhã.

A maldade ou violência jamais havia passado por sua cabeça. Tem gente que é mal sem ser violenta e gente violenta que não é mal. Ele nunca foi uma coisa nem outra. Fez até uma doação para as Casas André Luiz, próxima a sua casa no Parque Continental, em Guarulhos.

5h30m da manhã era um bom horário.

Ele saiu de casa com a faca guardada sob um casaco. Era uma faca velha, deliberadamente escolhida por não ser a mesma faca utilizada para se fazer comida. Era quase um instrumento utilizado em construção civil, pois ele se lembrava de ter cortado uns fios com ela, nada mais do que isto. Não estava afiada mas continuava uma boa faca para se matar alguém, ele pensava.

Também não se considerava um psicopata, daqueles que precisam matar alguém para se sentir bem ou esquizofrênicos que matam porque receberam ordens de alguém ou algo imaginário, como uma acelga.

Pois é, uma acelga. Esta imagem lhe trouxe um sorriso aos lábios. Já pensou alguém dizer que teve que matar a outrem por ordem de uma acelga?

Seria curiosidade? Não, também não era curiosidade, pois já tinha visto gente morta antes e se enojou tanto quando qualquer outra pessoa.

Ficou aborrecido por estar tentando analisar a si próprio e decidiu simplesmente cometer o ato, sem mais delongas.

As pessoas do bairro ficariam impressionadas.

Brunhildo tinha um nome esquisito mas era uma pessoa normal. Fiscal de ônibus, 47 anos, torcedor do São Paulo, casado, pai de três filhos dentro do casamento e um fora, tinha casa própria construída por ele mesmo. Ia à missa uma vez por mês, quando não estava com preguiça de andar três quadras até a igreja mais próxima.

Frio. Uma leve garoa. Um chuvisco, na verdade. Outono, quase inverno.

Não iria escolher a vítima, mas presumia que naquele horário encontraria no máximo donas de casa comprando pão na padaria ou um adolescente retornando da balada ou algum garçom coitado que ficou uma hora esperando o ônibus na Estação Tucuruvi.

Ou então... algum velhinho levando um cachorro vira-lata para cagar. Lá vinha ele, descendo a rua.

Brunhildo se escondeu atrás de um muro.

Quando ouviu passos, retirou a faca da cintura.

No momento em que o velhinho, que ele já tinha visto e se chamava Aderbal, Oduval, Edernal, alguma coisa assim, passou por ele, Brunhildo desferiu o primeiro golpe.

Uma facada vertical, na altura do ouvido, da esquerda para direita, que fez espirrar sangue pela calçada.

O velhinho caiu, gritando uma espécie de socorro pouco audível, pois ainda estava surpreso e apavorado, segurando o corte com a mão direita, pois com a esquerda segurava a guia do vira-lata.

Este começou a latir e tentar morder Brunhildo.

Brunhildo posicionou-se com as pernas abertas sobre o velho e segurou a faca, com a ponta virada para baixo, com as duas mãos. Parecia que iria sacrificar um porco.

Cravou a faca na altura do peito do ancião e a faca ficou tão bem cravada que ele não conseguiu soltá-la.

O pobre coitado deu um último urro e desfaleceu.

O cachorro continuou latindo e tentando morder a calça e o sapato de Brunhildo, com seus dentes pouco úteis.

Brunhildo afastou-se e ficou a dois metros do corpo, observando-o, sem que seu cérebro fosse tomado por qualquer pensamento, nem sequer satisfação, muito menos arrependimento.

Brunhildo sentou-se no degrau de uma casa e ficou assim, esperando alguma coisa acontecer.

O que aconteceu foi que os vigilantes do bairro ouviram os gritos e aproximaram-se em suas motos. Sacaram suas armas e obrigaram Brunhildo a deitar-se no chão.

A polícia e o resgate foram acionados.

Perguntaram a Brunhildo o porquê de ter feito aquilo e ele respondeu que não sabia. Deu a mesma resposta a sua família.

Foi encaminhado a um manicômio judiciário, onde permaneceu quatro anos. Foi condenado por tentativa de homicídio doloso, pegando a pena máxima de 14 anos, mas saiu em liberdade condicional após 4.

Por sugestão da família, mudaram-se de cidade, pois se voltasse ao Parque Continental, em Guarulhos, seria morto.

A vítima sobreviveu, pois não foi atingido nenhum órgão letal de seu corpo. A facada no pescoço pegou no músculo abaixo da orelha e a do peito pegou de raspão no coração e pulmão esquerdo, algo que foi resolvido com boas cirurgias.

O velhinho, porém, nunca mais saiu com seu cachorro vira-latas às 5h30m da manhã de domingo. Nem nunca mais andou sozinho na rua

Brunhildo freqüentou uma psicoterapia em grupo, num posto de saúde, por dois anos, onde praticamente não falava nada. Nunca mais teve vontade de matar ninguém e se tivesse, não iria tentar cometer o ato.

Decidiu por conta própria largar a terapia.

Continuou trabalhando.

Por volta dos 60 anos, foi abatido por um violento arrependimento.

Um dia, chegou em casa mas antes de entrar, sentou-se no degrau de entrada e caiu num choro profundo, murmurando para si:

- Que merda que eu fiz... que merda que eu fiz...


CHOFER DE FROTA


Era uma sexta-feira fria e chuvosa. Estava eu procurando passageiros na Avenida São João. Esta hora sempre tem uma puta, um traveco que arranja um cliente e consigo uma corridinha de dez pilas, quinze pilas.

Trabalhar em frota é assim. Ou roda de táxi o dia e a noite toda ou não paga as contas.

Alguns peões passam a noite toda esperando um busão no ponto, que só vai passar quatro, quatro e meia da manhã. Dá dó. Mas a vida é assim mesmo. Estou de carro, abrigado da chuva. Meu táxi tem ar condicionado. Mas minha vida é uma merda do mesmo jeito. Deus sabe o que já passei como taxista.

Assaltos, bêbados que não sabem onde vão. Um dia um bêbado que se dizia diretor de cinema... qual era o nome dele mesmo? Dioclécio? Dionísio? Uma coisa assim. Me fez rodar a cidade toda em busca sei lá do que. A corrida deu R$ 235,00. Ele simplesmente disse que não tinha como pagar. Chamei a polícia. Os policiais conversaram com ele, abriram a carteira dele, arrancaram R$ 50,00 e me deram. Falaram para eu voltar na casa dele no dia seguinte e tentar cobrar, caso contrário, deveria procurar o Tribunal de Pequenas Causas.

Desisti. O tempo que perderia no tribunal me custaria mais do que R$ 200,00.

A noite prosseguiu. O frio aumentou, junto com a chuva.

Pela terceira vez que passei naquele ponto perto da Love Story, a moreninha estava lá. Arrepiada de frio. Acabaria sendo assaltada por um nóia. Resolvi parar o táxi.

- Para onde você vai?

- Santana.

- Eu moro lá. Estou indo para casa. Eu te levo por R$ 10,00.

- Tenho não, seu moço.

- R$ 5,00?

- Só tenho um bilhete de ônibus.

- Olha, vou quebrar seu galho. Vou te levar de graça e outro dia que a gente se encontrar você me dá R$ 10,00.

- Jura que vai fazer isto, moço?

- An-han. Entra aí.

- Ai, Jesus te abençoe.

A morena entrou no táxi.

Eu não morava em Santana, morava no Jardim São Luís. Rigorosamente do outro lado da cidade.

- Ainda bem que tem gente boa nesse mundo. – ela disse.

Partimos.

- Tem namorado?

- Não.

- Nem fica com ninguém?

- Não.

- Por quê?

- Não sei.

- Mas você é muito bonita. Deve ter um monte de gente querendo namorar com você.

Ela sorriu.

- Eu sou um.

- Hein?

- Está com muita pressa de chegar em casa?

- Moço, se está com más intenções, é melhor me deixar aqui mesmo.

- Não está com fome?

Ela não respondeu. Ficou séria.

Eu não iria perder a noite.

Perguntei onde era sua casa. Ela me falou. Santana era um lugar sossegado. Ruas tranqüilas, escuras por culpa das árvores.

Antes de chegar na sua casa, encostei. Ela tirou o cinto de segurança. Iria fugir do táxi.

De repente um farol alto me assusta. Um camburão parou atrás de mim. Polícia.

- Fala que sou seu namorado.

- Vou falar que você quer fazer maldade comigo.

- Eu estouro sua cabeça. Olha isso.

Levantei a camiseta e mostrei meu revólver na cintura.

- Ai, meu Deus... ela disse.

Os policiais se aproximaram, um de cada lado do carro.

- Não dá bandeira, não dá bandeira. – falei a ela.

Abri o vidro.

- Boa noite. Nós somos namorados. – adiantei.

O policial do meu lado perguntou:

- Está tudo bem, moça?

- Está sim, ele é meu namorado.

Mostrei os documentos a eles. Pegaram nossos RGs e levaram para a viatura, onde constataram nossas fichas limpas.

O policial devolveu os documentos. Pediu para tomarmos cuidado e partiram com o camburão.

Olhei para ela. Meu pau estava duro.

- Me chupa. – falei.

- Moço, não faz isso comigo não.

- Vai perder a vida por causa de uma chupada que não quer me dar? – falei, enquanto sacava o revólver com a mão direita e com a esquerda, tirava meu pinto duro para fora da calça. Ela estava olhando para o outro lado. – Pode começar.

Titubeante como alguém que tem que chupar um pau com um revólver na cabeça, ela se aproximou devagar, tremendo toda.

- Desse jeito não dá. Chupa com gosto, caralho! – falei, apertando o cano do revólver na cabeça dela.

Aí ela chupou com gosto mesmo. Parecia profissional.

De repente, achei que ela estava gostando. Enquanto ela me chupava, eu passava as mãos em suas tetas e sua bunda. Gozei dentro da sua boca.

- Não cospe. Engole tudo. – botei o revólver na cabeça dela de novo.

Ela engoliu.

- Posso ir embora agora? – ela disse.

- Não, estamos só começando.

“Central para 015”.

Meu rádio.

- 015. – atendi.

“Passageiro na Love Story precisa de corrida até Cumbica”.

Nossa, corridão. Cem paus brincando.

- Tenho que ir. – falei a ela. – Me dá seu telefone.

- Não tenho.

- Nem no trabalho?

- Não. Não lembro.

- Você trabalha onde?

- Num bar da São João. Lá onde você me pegou.

- Olha, faz o seguinte. Fica com meu cartão e me liga amanhã, tá bom? Mas é para ligar mesmo. Se chamar a polícia, já sabe o que vai acontecer com você.

Ela desceu do táxi.

No dia seguinte, meu celular toca. Era ela. Não podia ser. Só poderia ser armação. Sinceramente acreditei que ela não iria me ligar e ainda iria chamar a polícia. Achei-me um verdadeiro idiota em dar o meu cartão a ela.

Peguei a Via Dutra e me mandei. Quando cheguei em Jacareí, deixei meu táxi numa rua deserta.

Fui a um ponto de ônibus na estrada e esperei até umas seis da manhã, quando passou um ônibus coletivo para São José dos Campos. Comprei uma passagem para Belo Horizonte. Era o primeiro ônibus que iria passar, uma hora depois.

Desci em Contagem. Hospedei-me num hotelzinho perto da rodoviária.

E agora, o que eu faço da minha vida?

Que caralho ser homem e ter tesão. A gente faz cada merda.


MALDITO PEIDO


Ela chegou na festa e disfarçadamente procurou por seu amado: seu professor de filosofia, por quem estava apaixonada.

Ela era estudante do primeiro ano de psicologia e não imaginou que um professor de filosofia poderia ser um morenaço daqueles, que parecia dar a aula exclusivamente para ela.

Por isso, na festa da faculdade, naquela balada chique, ela colocou a melhor roupa, a melhor maquiagem e ainda passou umas horas lascando uma chapinha no cabelo. Não deixaria escapar seu professor de filosofia.

O problema é que naquele sábado, estava sofrendo de uma terrível prisão de ventre que a estava até deprimindo. Mas lutaria para vencer o problema, afinal seu objetivo era bastante nobre: ficar com o professor de filosofia, de preferência na frente de todo mundo, o que deixaria o beijo ainda mais gostoso. Pensando bem, se ele quisesse comê-la naquela noite mesmo, daria tranquilamente.

Encontrou-o, cumprimentou, ficou fazendo aquele joguinho de “tô a fim de você mas não muito”. Apareceram outras pessoas para conversar mas ela deu um jeito de ficar por perto do professor.

No entanto, sua barriga parecia estar crescendo, com aquele gás sendo produzido desesperadamente. Pediu licença e foi ao banheiro. Lotado. Não iria peidar ali na frente de todo mundo. Uma solução seria entrar na pista de dança lotada, peidar e sair. Ninguém perceberia.

Quando chegou na pista de dança, desistiu de novo. Tinha muita gente conhecida ali. E o pior é que quando estava de saída, apareceu o professor de metodologia científica, que resolveu conversar um pouco sobre amenidades. E ela ficou ali, ouvindo sua longa conversa, que parecia estar durando já umas duas horas.

E o gás em sua barriga aumentando, aumentando...

Quando conseguiu se desvencilhar do professor de metodologia, passou a andar pela balada, em busca de outro banheiro ou de algum lugar onde não houvesse nenhum conhecido, que a pararia para conversar.

Achou um local tranqüilo, perto da entrada da cozinha, mas quem estava andando por ali era justamente o professor de filosofia, que a pegou e a beijou, sem que ela pudesse esboçar qualquer reação.

O beijo foi longo e muito bom... embora ela não estivesse conseguindo segurar mais o peido. Iria explodir. Iria peidar ali na frente do gostosão e seria a morte!

Não estava agüentando mais. O peido parecia ter vida própria, pressionando seu esfíncter como uma turba de bárbaros querendo romper os portões de um catelo.

O professor a apertava forte e isto pressionava sua barriga ainda mais.

Ela pediu licença e disse que voltaria logo logo. Saiu correndo. Tinha que achar algum lugar para peidar.

Sem perceber, deu uma volta enorme e praticamente voltou ao mesmo lugar, onde achou uma saída para um jardim. Como estava muito frio, havia pouca gente ali. A estudante de psicologia olhou a sua volta e dirigiu-se à extremidade do jardim, onde aparentemente não havia ninguém.

E foi lá mesmo que soltou a bomba. Um longo e ruidoso alívio do gás que estava preso em seu intestino grosso. Quanto tempo durou aquele peido? Oito segundos? Dez segundos? Não sabia. Só sabia que foi o melhor peido de sua vida. Não bastasse a eliminação daqueles litros de gás podre de intestino, ainda deu um arremate, um flato retardatário.

Seu professor de filosofia, quando viu a moça dirigindo-se ao jardim, ficou curioso e decidiu segui-la. Sem que ela tivesse percebido sua presença, testemunhou o peido mais longo que já contemplara em sua vida, cuja música da balada mal conseguiu ocultar o ruído.

Quando a moça acabou, o professor teve vontade de bater palmas, mas achou que seria humilhante demais para ela.

A estudante, suspirando de alívio, olhou enfim para trás e viu o professor.

- Que você está fazendo aí? – ela perguntou, espantada.

- Eu vi você entrando no jardim e resolvi te seguir.

- O que você viu?

- Vi isto que você fez. - disse ele, na maior inocência, achando que ela daria risada.

- Ah, meu Deus, que vergonha...

Ela saiu correndo. Seu professor tentou segurá-la, dizendo que não havia problema nenhum, mas ela ficou constrangida demais.

Desvencilhou-se dos braços dele e sem se despedir de ninguém, deixou a balada e nunca mais voltou à faculdade. Ninguém a achou em sua casa ou em seu trabalho, pois ela também pediu demissão e mudou de casa para local ignorado.


MORANGOS DE INDAIATUBA


Seu ex-namorado a trocou por uma namorada mais bonita. “Cafajeste!”, dizia dele. Mas, no fundo, ela sabia que o cara se mandou porque a paixão acaba mesmo e ponto final. Ele lhe deu o fora, mas poderia muito bem ter sido o contrário. E não admitiria que ele a chamasse de cafajeste. Nem nenhum homem.

Agora ele tinha um carro e estava na faculdade de sociologia. “Que faculdade de bicha!”, falava a desprezada. Ele conheceu a vagabunda no emprego. Era vendedor de baterias numa loja da Teodoro Sampaio. A menina estudava bateria na escola em cima da loja. Ele também tocava bateria numa banda cover. “Músico frustrado, toca em banda cover”, continuava praguejando.

Fez questão de ver a namorada dele. Soube através de uma amiga, que passou de ônibus na rua e o viu atracado com a moça, na frente da loja.

A ex ficou meio disfarçada, fingindo ver revistas numa banca.

“Hippie vagabunda. Vai ver nem toma banho”, acreditou.

A cara de débil mental feliz do ex, abrindo a porta do Gol branco para a hippie nojenta foi o que causou mais ódio na balconista da lanchonete Suco de Ouro, no Hospital das Clínicas.

Dois meses depois, a hippie entrou na lanchonete. Sua antecessora no coração do baterista fingiu que não a viu e virou as costas.

- Amiguinha! – chamou a hippie.

A balconista teve ímpetos de esfaquear a filha da puta. Virou-se com um olhar de história em quadrinhos.

- Eu queria um suco de morango. Com leite.

Sem dizer uma palavra, a atendente foi à cozinha, retirou seu absorvente e espremeu o sangue no liquidificador. Colocou alguns morangos congelados, leite e açúcar.

Levou o copo à namorada do ex e observou-a tomar um gole com canudinho. A hippie fez uma careta:

- Que sabor diferente.

- São morangos de Indaiatuba. – respondeu.

A “imbecil”, como a balconista considerava a namorada do ex, tomou tudinho. Foi observada com um quase sorriso.

A hippie pagou o suco e saiu meio aborrecida, insatisfeita com o sabor esquisito do suco.

A moça abandonada lavou o copo com um grande sorriso, desta vez.

“Morangos de Indaiatuba... de onde tirei esta idéia?” – divertia-se.


O BILHETINHO


Sabe aquele ponto em frente à igreja da Vila Rosália? Eram quatro da manhã. Ou quatro e pouco. Cheguei perto do filho da puta, apontando-lhe [gostou da ênclise?] o cano e disse:

- Vou te matar, filho da puta!

- Por quê?

- Por que eu quero, filho da puta!

- Quer me matar por quê?

- Porque eu estou com vontade! [Eu não tinha o hábito de falar bonitinho daquele jeito, “eu estou com vontade”. Normalmente, eu diria: “Tô cum vontade”].

- E por que justo eu?

- Por que você tem cara de filho da puta!

Descarreguei o cano em cima dele. Seis pipocos que ecoaram pela madrugada [sou poeta!].

Já ia caminhando em direção ao Lago dos Patos, quando reparei num volume. Talvez uma marmita que o filho da puta carregava.

Era. Embrulhada numa sacola do Barateiro. Abri. Estava quentinha. Arroz, feijão, picadinho e batatas. Seria o meu jantar. Quando guardava de volta na sacola, percebi um bilhetinho. Li:

Não vai chegar tarde, hein? Te amo!

Aqui foi demais. Não agüentei, sentei no meio-fio e comecei a chorar.


O FANTASMA


Eu morava num prédio com várias quitinetes.

Uma noite, uma mulher bateu na minha porta, desesperada. Dizia que havia um fantasma na quitinete dela.

Ela usava uma camisetinha da Minnie e um shortizinho de florzinhas, através do qual eu via a sombra de sua calcinha.

No cinco meses que eu morei ali, vi aquela moça poucas vezes. Eu chegava em casa próximo de meia noite, por ser segurança de uma farmácia. Via poucos vizinhos.

Não vou dizer que a vizinha era uma deusa. Não era nem a mais bonita do meu andar. Mas tinha aquele jeito de quem não dava umazinha há um certo tempo. Bom, foi o que eu achei, pelo menos.

Fantasmas? Ora fantasmas!

Falei para a moça que era impressão dela, que ali não tinha fantasma nenhum.

Nem velho era o prédio.

Tanto insistiu que eu fui lá ver o fantasma.

E não é que tinha um fantasma mesmo?

Perto da cama dela, uma figura antropomórfica de pé, coberto com um lençol branco. Estava imóvel. Que será que ele estava querendo?

Falei para a moça que se ela quisesse dormir na minha quitinete, poderia ficar á vontade. Ela topou.

Fechei a porta do apezinho dela, após apagar a luz, por sua recomendação. Passei até a chave na porta. Imaginei que assim o fantasma iria embora.

Levei a mulher para meu apartamentinho e mal ela entrou já foi me abraçando, dizendo que eu era seu herói... que tem de gente louca nesse mundo.

Se eu comi ela? É claro, ué.


PORRA, MANO, ESSE SOM É MUITO DEZ


Qual é o nome desse som? Mistura de hard rock com rap. Hard rap? É a versão branca do rap. É, mano. Beastie boys, mano. Red hot, mano, é, mano, morô? Red hot, mano.

É, mano, é isso aí, mano.


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