Excerpt for Prosa Versificada I by José Leon Machado, available in its entirety at Smashwords



Prosa Versificada – I


Poesia


José Leon Machado



Edições Vercial



Índice





Textos recuperados para uma espécie de introdução



A moderna poesia portuguesa


No livro Para Sempre, publicado em 1983, Vergílio Ferreira, num tom de chacota, apresenta as novas correntes de poesia moderna: «o baralhismo que baralhava muitas palavras e as atirava ao ar e caíam em forma de poema – e o saquismo. Que era metê-las num saco para as tirar ao acaso da inspiração, e o mudismo. Que era a poesia muda em livros em branco».

Alguns anos passados e, num relance de olhos, descobrimos que essas palavras se coadunam com o que hoje se escreve e se edita em Portugal.

Os nossos poetas escabujam palavras, amontoam-nas, uma lixeira de detritos onde a variedade de colorido, de odores é colossal. Para os compreender, um esforço inaudito pedido à sensibilidade e à inteligência.

A mescla de sensações e pensamentos não destoa num poema. O que destoa é não haver sensação nenhuma e o pensamento estar ausente como a água no deserto. Borram-se páginas inteiras de linhas que não significam absolutamente nada. Ou, então, às vezes um verso perdido no fundo da página branca.

Não defendemos, porém, o regresso às formas clássicas, aos versos rimados, certinhos como a esquadria de um prédio. Serão bonitos de ouvir, mas talvez não se harmonizem já com a inspiração bravia e complexa dos novos poetas.

Para a história da literatura, como experiências no campo estético acumuladas, as formas clássicas através dos seus utilizadores são sempre positivas. O passado, dizia Jung, «faz parte de nós».

Os trovadores, Camões, Bocage, Antero, Pessoa, legaram-nos um manancial inextinguível, uma poética que perdurará. E esses poetas de cordel que anualmente editam um livro ou são premiados pela associação fulana de tal, que nos legam? O baralhismo, o saquismo, o mudismo?

Um ou dois nomes a destacar do mar poluto da moderna poesia portuguesa: Herberto Hélder e João Miguel Fernandes Jorge. A grande verdade é que uma época dá poucos artistas que ficam. Serão estes a marca dos recém-chegados anos noventa?


29/10/1990


A crise do lirismo amoroso


A temática amorosa é uma linha de força ao longo da história da literatura portuguesa. Foi o tema mais tratado pelos poetas desde a Idade Média, talvez porque outros temas fossem inconvenientes, como a problemática do homem na sociedade e no mundo, a contradição religiosa, a denúncia quer da política dos poderosos, quer das misérias sociais e morais. A censura, a Inquisição, a repressão avassalaram constantemente os poetas. O medo à fogueira, a deportação e a forca constituíam meios bastante persuasivos a não se aventurarem por outras temáticas que não o «cuidar e o suspirar».

Na poesia dos trovadores o amor entre o homem e a mulher aparece puro, cortês e atrevido, conforme fossem cantigas de amigo, de amor ou de escárnio: O poeta era um trovador apaixonado que cantava em verso os seus sentimentos peitorais. Todas as composições, ou a grande maioria delas, andam à volta da mulher e do homem que a corteja ou é cortejado.

Com o Renascimento e as influências de Dante e Petrarca, o sentimentalismo amoroso, o sofrer que mata, aprimora-se. A mulher é aquela coisa loira e branca, inacessível como um anjo, que o poeta chora e endeusa. Camões foi o máximo expoente desta tendência, com Sá de Miranda, António Ferreira e Bernardim Ribeiro como precursores. O seu fogo de amor revelou-se tão intenso que ainda hoje, ao lado de Bocage, é considerado o maior «pinga-amores» da literatura portuguesa. Não se perdera o épico por causa de «üa dama»?

A lírica barroca e a lírica neoclássica seguiram de perto os passos dos poetas anteriores. A beleza da mulher, a sua inacessibilidade, o amor não correspondido continua a inspirar os poetas, agora mais artificiosos. Até os frades dedicam às suas «musas» primorosos sonetos, como Jerónimo Baía, frade ingresso do mosteiro de Tibães. Francisco Rodrigues Lobo, D. Francisco Manuel de Melo, Correia Garção e Bocage tresloucaram a dar ais sentidos pelo desprezo das damas queridas.

Os românticos do século XIX exageraram os ais, ofuscando, ora de exacerbada alegria, ora de profunda amargura, a sinceridade poética dos anteriores. Almeida Garrett foi o último grande lírico a tratar a temática amorosa entre homem/mulher. Folhas Caídas é uma espécie de lousa que encerra definitivamente a primazia dessa temática no túmulo marmóreo da inoperância.

Eça, nos seus romances, considera corrupto e impuro o amor entre homem e mulher. Primeiro porque nos seus romances o casamento era pré-fabricado sem comum consentimento. Segundo, porque os cônjuges se enganavam mutuamente, chegando Eça a afirmar «que em toda a Lisboa não havia uma única mulher virtuosa e séria». Tanto eles como elas se entregavam ao deboche extraconjugal.

Eugénio de Castro e os simbolistas ignoravam tal temática nas suas composições líricas. Há outras preocupações, como a exploração do inconsciente humano, o sonho, os delírios, o fantástico, a música, a luminosidade, as atmosferas exóticas e o desenraizamento do banal. Não havia já lugar para o verbalismo retórico cheio de exclamações e suspiros de paixão pela amada.

Os poetas modernistas, a começar em Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, preconizaram uma renovação temática. A angústia existencial, o absurdo da vida e da morte, a frustração impotente, o tédio, a dor, o ceticismo perante o mundo vão fundamentar a presente perspetiva.

Aqui ainda menos o amor homem/mulher se insinua. As preocupações dos poetas do século XX já não são de procurarem exteriorizar a sua dor de mártires de Cupido. Projeta-se um amor universal a todos os homens, à natureza, ao real, ao onírico e ao ideal. Vemos os neorrealistas a denunciarem a repressão e as desigualdades sociais, defendendo a liberdade e a democracia (Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira). Os surrealistas procuram o desconhecido e o insólito (Alexandre O’Neil, Mário Cesariny e Herberto Hélder). Os que não se encaixam em nenhuma corrente, como Eugénio de Andrade e Ramos Rosa, optam pela descoberta da musicalidade e bonomia das coisas simples e primordialmente importantes.

E agora, quando aparecem esses poeteiros a choramingar de amores por alguma musa sua conhecida que lhes não deu treta, dá vontade de considerar: será que o lirismo amoroso não está realmente em crise?

Não há rapazinho português que, em tempo de cio, não encavalite meia dúzia de versos, com três ou quatro lágrimas e mais umas tantas noites de insónia. Para a paixoneta, passa a inspiração e o vate encosta a lira. Quem não fez versos na juventude e os não dedicou a alguma Dinamene? Ora, os versos nem sempre fazem poesia. A poesia, contudo, pode ser feita de versos.

21/01/1992


Egas Couto, poeta da cor e da forma [1]


Nascido em 1945 nos arredores de Braga, Egas Couto cedo experimentou a oposição entre a vida rústica e a vida citadina de província. Filho de gentes do campo, herdou-lhes a dedicação às plantas que crescem, à chuva, ao sol, ao fogo que aquece e à água que refresca. Da cidade aproveitou o contraste das formas, o geométrico, o som, as vozes, as cores, o stress. Em Braga estudou na Escola Comercial. Nos anos 60 foi passar uns tempos a Macau, destacado como militar.

Aí soube usufruir dos perfumes do Oriente, a filosofia do imponderável, os sons raros, as comidas exóticas e o rancho do quartel, com casernas cheias de mosquedo e aromas nauseantes. Provém também desta época a sua irredutibilidade às normas e às leis.

Voltou a Portugal. De emprego em emprego nas horas em que não escrevia, fez de tudo, ou quase: motorista, empregado de balcão, escriturário e finalmente professor de trabalhos oficinais. Atividade que ainda agora exerce, com certa repugnância. «Mas os poetas também precisam de comer», diria a um amigo.

A sua obra literária não é vasta. Contam-se quatro livros publicados, três de poesia e um de ficção: Verticais, Sem Corantes, Preposições e Mundo da Mágoa. Nunca redigiu artigos literários para jornais ou revistas, sendo praticamente desconhecido nos meios culturais nacionais.

Não inserido em nenhuma corrente poética modernista ou vanguardista, Egas Couto é ele-próprio sempre. Não tem ninguém atrás e ninguém depois: «nem mestres nem discípulos», diria; «Não devo nada a ninguém. Saldei há muito todas as dívidas». Confessou que nunca lera uma única linha de poesia extrapessoal, além dos autores que o obrigaram a estudar na escola, como Camões e Afonso Lopes Vieira. Poetas que, segundo ele, o nausearam por serem «o suporte do regime salazarista».

A poesia dos seus livros pode resumir-se nalgumas constantes: a geometria das formas, com alusões a triângulos, quadrados, ângulos, encaixes, linhas, paredes, janelas, esquadria, prédios, árvores recortadas; a visualização das cores, como o azul, o vermelho, o verde e o amarelo, o brilho da luz artificial; a rejeição do fácil através dos versos obtusos com uma sintaxe em desequilíbrio lógico e uma semântica despragmatizada; a mitologia popular, imiscuída na lenda e na superstição das gentes do norte português, num amálgama com a sociedade atual, tecnicizada e consumista; a busca do inútil um pouco à maneira de Tristan Tzara que ele próprio desconhece. Também Egas Couto diz, como o poeta do dadaísmo: «Os meus poemas não significam absolutamente nada». São uma maneira de estar, de ouvir, de ver, sem dor ou alegria.

Egas Couto escreve sem risco, porque nada arrisca e nada está em jogo. «Nem a própria literatura». É um ato como o respirar, o comer, o ir ao café, mas abstraído da intenção e da necessidade desses atos. É com satisfação que (re)editamos nesta página alguns dos seus poemas para conhecimento de alguns que o ignoram a para regozijo dos que lhe são caros. já tivemos oportunidade de, neste ano que termina, apresentar um seu poema do livro Preposições.


Hoje propomos outro do mesmo livro e um de Verticais.

Terminamos com as palavras do poeta sobre si: «Um poeta não tem que ser amado e badalado. Odiado talvez, ou pelo menos vendido ao quilo para reciclagem».



RISCO


Azul quero que seja gravado em azul

Nem vermelho ou preto azul marinho.

Moeda efígie gravada um rei

A minar um sopro o poder de morrer

Cujo finco de azul soçobra.


Em Verticais



CONFORME


Chuva no telhado da casa

Folhas de choupo carvalho

Em queda lenta rigorosa

Sonâmbulos edifícios timbres

Ferrugem de antenas

Um mastro sem bandeira


Talvez um pássaro ainda cante

Sob o meu telhado.

Cedro verde eterno, inferno

No fogão de sala apagado.


A máquina do café não sai

Cai sonolento um arrepio

Inconstância do corpo

A buscar aconchego de voz.


Núcleo centro crase sonso

O responso litúrgico

Em dia de fiéis defuntos.

Até o Além se paga caro

Não vá Deus oferecer lugar

A quem tem mais ou se avia

De gravata.

Devir pregas de sofá

Chuva no telhado a mim

Surte efeito o pensar agudo

Na morte dos que não eu.


Em Preposições


18/12/1991



[1] Egas Couto é uma ficção do autor que se originou durante conversas sobre literatura com José Carlos Espírito Santo, seu companheiro da secção «Anti-Literatura» publicada no Correio do Minho.


Os Desabafos do Sr. Teixeira



PARTE I



Sentia somente, nesta noite suave, qualquer coisa, alguém, morrer em mim.


Nikos Kazantzakis



HOMO SESSUS


I


As grandes aspirações do momento,

Os pensamentos altos de subtilidade,

As raras sensações fugidias,

Um conceito obtuso do mundo,

Os ruídos cavos da civilização,

Aquela ideia para um filme,

A nota timbrada de uma música,

Eu no meu quarto a palpar a parede.


Comer um poema de Leo Ferré

Impresso em papel couché é indigesto.

Ainda há flores entre as pedras,

As rosas nascem sobre as lajes de cimento

E os muros esverdeiam de musgo.

Esta coisa do vídeo só estraga a arte.

Onde estão os direitos de autor

Numa cassete comprada na feira da ladra?


A arte dos livros tem mais valor,

Não se pode falsificar o conteúdo.

E eu, que passo a vida a falsificar-me!

Pirateio a vida todo os dias

Depois de me barbear ao espelho

E vestir o casaco para sair à rua.

Mas ninguém sabe que não sou eu

Aquele que sai pela porta da frente.


Toda a vida saí pelas traseiras,

Como a empregada que faz a limpeza

À casa duas vezes por semana.

Um vaso de jacintos que florescem na primavera

Sorri-me quando chego carrancudo

Dos negócios sujos, porcos

A que me obrigo a escravizar

Quando sei que é vão o meu esforço.


O país não muda e os negócios também não.

Quem muda são os homens

Para outros homens de ambição maior.

A minha mais importante ambição:

Entrar pela porta da frente

E oferecer-me um ramo de flores.

Que ambição poética e delicada!

Os insetos viscosos borrariam as flores.


Uma tia está doente às portas da morte.

Mas essa tia para mim já morreu.

Não a conheço e só ouvi falar dela hoje.

Aqueles que nunca vimos não existem.

Deus existe porque ainda outro dia

O vi numa criança a chorar.

E o senhor Gorbachov também existe,

Porque o vi a discursar no politburo

Quando o telejornal emitiu as news.


Veio uma colega de emprego e queria

Que eu fosse para a cama com ela.

Os justos têm às vezes as suas tentações.

Pena eu não ser justo e não ter tentações!

Mandei-a embora e disse-lhe para ter vergonha.

Não tinha vontade de a aturar

E satisfazer os seus caprichos sexuais.

Agora anda tudo ao contrário.



II


Costumo masturbar-me intelectualmente.

Dá-me grande gozo sentir as ideias,

Apalpá-las como coisas reais.

Não me parece bem nem mal

A roda do mundo e dos homens.

Porquê exaltar-me com a miséria

E a guerra que grassa nos continentes?

Não me afetem que eu fico sentado.


Pus um autocolante no para-brisas

Sobre propaganda de certo partido político

Que por acaso ganhou as últimas eleições

E agora vai desgovernando o país.

Tem uma cor atraente e obedece às leis do cartaz.

Fizeram-no para cativar, deu resultado.

Porque será que não cativo ninguém

E ando tão colorido por fora e por dentro?


A torneira pinga e a conta sobe.

Acercou-se uma fulana que eu não gosto.

Vinha sorridente a abanar o traseiro

Gordo e desproporcionalmente estético.

Tive de parar a conversa com um amigo

Para ouvir os seus risinhos idiotas.

Ela foi-se, recomecei a conversa

Mas vi que o maior idiota era eu

Ao deparar na estupidez da conversa.


Perdi o bilhete de identidade

Ao tirar do bolso a carteira preta.

Agora sou cidadão do mundo sem mundo.

A identificação não serve para nada.

Eu sei muito bem quem sou.

Ou não é às minhas mãos

Que o dinheiro vem no fim do mês

E delas que ele sai para o bolso dos credores?


O que eu na minha sinceridade não sei

é donde vim e que me espera acolá,

Ao volver da rua que vai ao cemitério.

Talvez não haja motivo de preocupação.

Uma estrada começa e acaba.

Uma parede tem a parte de cá e a parte de lá.

Sempre que penso confundo-me até aos pés.

O homem da pedra utilizava os pés para andar.

Nós, os da civilização, pensamos com eles.


As horas esvaem-se no tempo,

O cavalinho continua castanho,

Montões de livros dão-lhe sabedoria,

Espalha-se sobre a mesa de pau-brasil

E vem afetar-me a quietude sagrada.

O cosmos é um grande livro aberto

E eu só tenho montes de livros fechados

Nas prateleiras da minha alma cinzenta.


Viagens, passeios por bosques frondosos,

Vales profundos, infindas planícies,

Cidades altas, cidades baixas, o mar,

Os rios, o céu e tudo o que fica longe

Da terra onde temos o coração,

Traz-nos cultura como o simples olhar

Uma estrela perdida no espaço da noite.

A cultura não se descobre em livros poeirentos.


Atirei-me desenfreado a uma dança

Como faziam os primeiros à volta do fogo.

Na juventude de minha avó dançava-se aos pares.

A Humanidade degenera para o egoísmo.

Cada qual frui o seu ritmo

Abstraindo-se dos outros e do lugar

Onde a música corre solta e bruta.

Danço e os pensamentos são veados em fuga.


Despedaço as carnes de raiva surda.

Um filho meu partiu, deixou-nos.

O sangue do meu sangue morrera aqui

Momentos após ter nascido da incerteza.

Que adianta romper-me a gritar

Se é quimera fazê-lo aos pés da morte?

O sofá mole absorve os membros cansados

E a cabeça relaxa no sono impossível.



III


A carteira a rebentar de dinheiro

Ganho numa felicidade qualquer

Não paga o que o meu coração

Marmóreo e preso à terra não tem.

Os livros de fecundas páginas

A regurgitarem de ciência e de verdade

Não vergam o meu espírito teimoso

De incertezas e mistérios profundos.


O que me chora é o teu sorriso terno

À noite ao entrar e o beijo doce

Dos teus lábios macios e mansos.

O que me dói é a tua voz clara

Nas manhãs de sol a chamar baixinho

E o afago meigo da tua mão na minha.

Seria feliz mesmo que não existisses

Porque para mim estarás sempre comigo.


Quando escuto a passarada nos galhos

E o vento calmo sopra de norte,

Vens com ele e cantas na minha árvore

Frente ao lar que construímos

Para abrigar o nosso amor nas noites de inverno.

Por isso nunca me esqueço de lavar a face

E não dormir com a carteira e os livros.

Ao chegares não me apanharás de porta fechada.


28/03/1988



IV


Um vizinho morreu.

Morreu como todos morrem:

Coração parado, estendido, nulo.

Foi honrado pai e marido.

Fartou-se de ser pai e marido, desejoso

De nascer outro sem filhos e mulher

Para sustentar, aborrecer e amar;

Desejo de não ter amigos importunos

E oportunos.


Enfastiou-se de tudo e nada.

Foram duzentos para o inseticida,

Morte barata nos tempos que correm.

Tornou-se azul,

Acabou roxo de mãos na garganta.

Um fora que deu ao mundo.

Rompeu, está agora onde ninguém anda,

Esquecido,

Se é que o nulo se pode esquecer.


28/01/1987



V


Poderosa força na rua da solidão.

Que farei no campo do jogo da vida?

Que posso tirar dessa força, ódio a quem?

Ajuda ao pobre que sou desde que nasci numa cama

Que nem era cama mas mãos duma parteira?


Eu gosto dos meus olhos estreitos e negros

E do cabelo que cai folhas de outono.

Gosto das minhas mãos deformadas pelo trabalho

E da mulher esperando em casa que eu chegue,

Dos petizes que me abraçam e puxam a barba.

Gosto do sol e da noite, pois é o sol que dá sustento

E a noite o descanso.


Não sou apenas cabelo, mãos e olhos.

Sou mais e esse mais é-me insuportável.

Insuporto ver-me cansado e feliz no meu canto

De homem honradamente comprometido.

Anseio estar para além do que me cerca,

Sobrepor-me a este assento

E avançar para a distância.


15/06/1987



VI


Queria deixar uma mensagem

Daquelas que gostamos de dizer aos amigos

Antes de partir.

Eu conduzo um automóvel.

Ele faz parte de mim quando o dirijo.

Corre veloz e nunca me deixou ficar mal.

Uma grande sorte, este meu carro.

Bem, certa vez furou um pneu

E foi-me abaixo na autoestrada.

Mas quem hoje não tem deslizes?


Motor de dois carburadores, um turbo.

Come que se farta. Não me importo.

Eu também como o que me apetece.

O que não me apetece guardo ou deito fora.

Mas isto não pertence à mensagem.

A mensagem que realmente queria deixar

Era esta: Não deixes na garagem

O teu automóvel sozinho.

Ao partires, parte com ele.


22/06/1987




VII


O carro numa rotina

Garagem abre portão fecha portão

Todas as manhãs à noite

Chova esfrie vente neve

Porque o carro esse

Deve ficar a seco

Fechado dos ladrões e do frio

Não vá fazer-lhe mal

À chapa ao motor.

Para o carro todas as atenções

Banhos de champô limpa-vidros

Cera de brilho escova de estofos

Verniz o tablier um mimo

Jantes especiais

Eternidades se perdem à volta dele

E até se chora se sofre um arranhão

Ou alguém lhe bate na traseira.

Um nunca acabar de cuidados

Que não damos a um filho

Porque esse é de carne

E não custou dinheiro

Nem foi preciso pedir empréstimo ao banco

Ele veio gratuito e chorão

Abalar alegrar interromper a vida.

Mas o carro leva o melhor quinhão

Porque sempre fiel

Não responde torto

Nem se mete com a filha do vizinho

E a engravida.

Bom filho o que eu comprei.



VIII


A ideia de rabiscar qualquer coisa,

O prazer de gritar frases hilariantes.

Sou um seco e estéril monte.

Vou no carro a baixa velocidade,

Estrada esburacada e cheia de curvas

– As estradas da velha Lusa.


Se quisesse parar na berma,

Puxar de papel e escrever não sei o quê,

Fá-lo-ia sem esforço.

Mas prefiro, acelerador ao fundo,

Gozar esta brisa que entra pelas janelas,

A sensação de ver que tudo foge.


E eu fico, num onde sem nome.


16/08/1987



IX


Um mosquito rabeia na mesa.

Atacou-me, esmaguei-lhe as asas.

Tropeça nas antenas

E quer levantar-se nas seis patas.

A força esvai-se, cai desfalecido

E exala o último suspiro

Face à pressão do meu dedo.


Uma borboleta procura a luz.

Passou rente ao meu nariz

E foi chocar na lâmpada do candeeiro.

Queimou as asas amarelas

Tão lindas fugindo ao castanho:

Repousa agora a sua desgraça.


Uma sombra atravessa a parede.

Sou eu disfarçado de mim.

Rabeia como o mosquito

E até dança como a borboleta

Que procura a cor e a luz.

Fundiu-se no escuro da sala,

Um mundo enorme sem portas nem janelas.


19/08/1987



PARTE II


I


Durmo com o rabo colado à cadeira.

Que mais poderia fazer senão dormir,

Dormir profundamente sem ter a consciência

De que durmo em hora de trabalho?

Não morro de fome nem de cede;

Tenho amigos, influências, cunhas.

E sou indispensável demais para que me despeçam

Por estender as pernas na secretária.

Eu sou importante!

Pedem-me conselho e tenho conta aberta num banco;

Sócio honorário do Sport Club do Carvalhais.

E até já escrevi uns poemas pró jornal da terra.

Por que não hei de dormir tranquilo?


17/09/1987



II


Era tarde quando saí do emprego.

Gastei o tempo a fazer bagatelas.

Que haveria eu de fazer num emprego onde nada se faz?

Aproveitei-o como pude e já vamos indo.

Há dias em que nem posso aproveitá-lo como quero:

Vem sempre algum bafiento protestar aos Serviços, apresentar queixa.

E eu bocejadamente escuto até que ele parta,

Contente por berrar contra os Serviços, aliviado.

Um relatório para a direção que nunca lê

E assunto encerrado.

Mas sempre dá trabalheira:

Na direção só aceitam relatórios batidos à máquina.

E vou batendo, tarde fora, a queixa impertinente.


A visita de um amigo é motivo de alegria.

Cavaqueia-se um pouco, passa-se tempo.

E é bom que o tempo passe

Para chegar depressa a casa e fazer serão com a família, com a mulher!,

Que os filhos já não dão valor a isso.

Preferem o café ou ir ao cinema ver porcarias.

(Não digam nada, mas eu também as vejo.

Quando há zanga em casa e ela não quer coisa...

Um homem de respeito também escorrega.)

Mas que essas porcarias não deveriam existir, concordo.

Corrompem e desencaminham a juventude.

Ah!, se eu fosse governo!...

E teria lá chegado, não fossem os desvios do mundo.

Fazia parte da junta de freguesia,

Era o tesoureiro... Houve problemas e demiti-me.

De minha livre e espontânea vontade, note-se.


Agora estou numa cama com ela a ressonar ao meu lado.

Cheguei tarde, jantei tarde.

Foi a visita ao Celestino,

O presidente do Sport Club do Carvalhais.

Moeu-me a cabeça com uma proposta.

Quer mudar a equipa e eu sou a pedra de que precisa.

Dir-me-á depois o que me reserva.


Duas horas a mais metido no detestável escritório!

E vou pensando, noite dentro, nestas e noutras coisas

Que eu sei nada adiantarem para mim.

Quando não se tem sono é porque já se dormiu.

Amanhã nos Serviços passo pelas brasas.


18/09/1987



III


Que raio de raiva me atormenta hoje!

Saí da cama sem pregar olho.

Não tenho problemas que me possam tirar o sono,

Estou bem comigo e com os amigos

(Os inimigos não contam porque já sabemos o que são).

Fico estendido a olhar o teto que não se vê,

A congeminar possíveis descalabros na vida:

E se me acontecesse isto, e se me acontecesse aquilo?

E não pode ser, pois o importante é viver agora.


Ontem pensei que me estavam a assaltar a casa.

Levantei-me, peguei na arma e percorri-a cauteloso

Esperando movimento suspeito.

Era imaginação desta riquíssima massa encefálica.


Hoje tive fome, mesmo fome.

Ataquei o frigorífico e desopilei o gasganete

Daquela secura tão característica do desfastio.

O frango a seguir dava voltas ao estômago

E eu pela casa ruminando.

Agora estou com este raio de raiva

Contra o ventre e contra o frango – bastante apetitoso –,

Contra a mulher que ressona,

Contra mim, desgraçadamente contra mim.


22/09/1987



IV


Um fim de semana como outro qualquer.

Fui à igreja de manhã com a mulher

– Não fica bem faltar ao culto –

E de tarde ao futebol ver

O Carvalhais perder quatro zero.

Uma vergonha vergonhosa!

E a culpa é do treinador.

Eu bem disse ao Celestino que o treinador

Era mais cantiga que técnica.

Agora querem rescindir-lhe o contrato.

Vão pôr o homem com as calças na mão.


Mas a equipa assim não está bem.

Talvez se eu fosse o treinador lhe desse um jeito.

Eu fui um grande jogador!

Chamavam-me até o biqueira de foguete.

Era um avançado perigosíssimo.

Quando chutava, tremiam as redes.

Depois casei e fui desleixando as biqueiras

Para treinar outro desporto.

Se demitem o treinador,

Ainda lhes posso mostrar o que valho.

Que força de vontade é coisa que me sobeja!


Um frango no churrasco, uns finos

E foi assim que celebrei os quatro a zero

Neste fim de semana como outro qualquer

Por não poder ser doutro modo.


24/09/1987



V


A mulher anda mal: «Dói-me isto, dói-me aquilo,

Ai querido que eu morro, ai homem faz-me um chá!»

Tretas manhosas que vão incomodando o sono

E a vida de todos os dias.

Levei-a ao médico, desensaquei a carteira

Prà consulta e prà farmácia.

Uma ladroeira a saúde nesta terriola à beira-mar

Que dizem de bom sol e de bons ares.


Anda ela agora a curar a doença que não tem

Atulhando as tripas de comprimidos.

Manias de mulher que gosta de ocupar-se

Mesmo com doenças hipotéticas.

Eu nunca estou doente!

Nem falto ao emprego por emborcar um copo a mais.

Era o que faltava o Teixeira ficar de cama

Atacado por um vírus qualquer!

Eles não querem nada com o Teixeira.

Está imunizado contra tudo.

Até contra a tentação do sonho de querer sair por aí

Como um mendigo a correr mundo.

Sonhos de rapaz e o Teixeira já não é rapaz.

Já não é rapaz... E que saudade!


26/09/1987



VI


O Celestino veio ontem falar-me.

Problemas no Sport Club do Carvalhais.

Quer rescindir o contrato do treinador

E já pensou no novo homem. Fiquei entumecido de vaidade.

Podia contar comigo, disponível a cem por cento.

Satisfeito agradeceu-me a boa vontade

E convidou-me então para dirigir

O bar do Carvalhais...

Que tem funcionado muito mal,

Que falta dinheiro, que desaparecem garrafas.

Eu era a única pessoa séria indicada.

Que tinha a certeza de que me daria bem.


Diabos o levem com a sua certeza!

Que pensa ele que eu sou?

Algum tasqueiro de servir borrachos

Depois de um jogo de futebol falhado?

Pró raio ele mais a proposta!

Era o que faltava andar agora de chave na mão

A desarrolhar garrafas de cerveja.

Muito amigos mas que não contasse comigo.

Fosse bater à porta do Batista.

Aceitaria de certeza e é pessoa mais indicada.


Que não, que esse será o novo treinador.

O quê?! O Batista o novo treinador?!

Que sim, que não havia pessoa mais experiente.

Pobre Sport Club do Carvalhais!

Olha aquele enfezado a treinador!

E eu? Resta-me o sonho de chegar a isso

E a chefia do bar que não aceito.

Porque eu ainda tenho um pingo de brio.


29/09/1987



VII


Que grande porcaria a vida!

São mais os dias de tristeza aos de júbilo.

Hoje não apetece viver.

Preocupações por tudo e por nada,

Um caminhar contínuo sem saber onde amainar.

Já lá vão as épocas do amor

Quando o peito arfava e tudo era cheiroso e bom.

Agora a mulher enfeiou, está gorda,

Insuportavelmente chata.

A mim vieram-me as rugas, o cabelo branco

E, pior do que tudo, este pessimismo,

Letargia das mãos macias e do coração duro.


Os filhos já não amam os pais

E eu não me importo.

Cresceram, são senhores do seu nariz,

Não precisam dos meus conselhos, só do meu dinheiro.

Falar com eles numa conversa séria?

Os velhos não sabem nada e são parvos!

Sou parvo. Sou mesmo parvo.


03/02/1988



VIII


Saí a dar um passeio pela cidade,

Deixei a mulher na casa de uma amiga.

Queria dar duas de conversa, que desse três.

Sinto o espírito cansado a olhar as montras,

Ver preços, coisas que já não interessa comprar.

Não, compras supérfluas não faço.

Dois fatos, três par de sapatos e um de botas

São os meus gastos anuais.

Comer bem, como. É o melhor que se leva deste mundo.


Parei no jardim onde a conhecera.

A tarde mais alegre de toda a alegria que eu tive.

Um catraio a experimentar...

E é com ela que vivo o resto dos meus dias.

Foram trinta anos e não valeu a pena.

Os dias perdemo-los na lida:

O trabalho, a educação dos filhos, os outros.

Não houve tempo para nós e agora é tarde.

É tarde. O sol desprende-se e cai para ocidente.


Adivinho excitação nos que passam.

Eu passo sem excitação no meu vagar

Porque já cheguei aonde devia.

Daqui a nada vem a reforma do emprego,

Esperam-me os bancos do jardim

E o hipotético lucro duma funerária qualquer.

Se eu morresse já?

Mas não. Tenho saúde de ferro e coragem

Para enfrentar as horas que me vão sobrar.

O presunto não falta e há vinho nos odres.

É o que me incita a viver mais uns tempos

Para recordar o que poderia ter feito

E rir-me do grande engano.


25/02/1988



IX


Não sei porque razão, levantei-me contente.

Ouvi os pardais no chilreio

Da janela e o sol deitando os seus raios.

Abri-a e tudo era verde no quintal.

Variavam as rosas vermelhas

Que eu plantara no último outono.

A única alegria que me consola

É tratá-las como filhos que já não tenho.

O estrume, o adubo, a rega

E depois vê-las crescer saudáveis.


Abri a janela, o sol entrou de rajada.

Espanta-me que tenha cantarolado

Ao desfazer a barba de um dia.

O habitual é eu estar carrancudo frente ao espelho,

Cortar-me e atirar logo uma carvalhada.

Hoje cortei-me e cantei mais alegre.

E isto assombra-me, porque eu quero ser como sou,

O mesmo homem de sempre.

As mudanças não são possíveis,

O sol é o mesmo e as rosas continuam vermelhas

E a nascerem da mesma maneira.

Por que haveria de mudar eu,

Agora que estou velho e parvo?


Era uma canção que me ensinara minha avó

Trauteada em romaria à Senhora da Saúde

Tão antiga, tão querida...

As lembranças assaltam-me e desespero

Como uma rosa a murchar no meu quintal

Sem água e o estrume que dão vida.


28/02/1988



X


A responsabilidade de ter um filho em solteiro.

Um deslize a que os novos estão sujeitos.

Mas o azar foi meu,

Que os amigos escaparam ilesos.

Alguma vez me bateu a sorte?

Se tenho poupanças, ganhei-as

Com o suor e noites sem dormir.


Um filho, carne desta carne,

Ir ao tribunal negá-lo.

Sabia lá se era meu!

Ela dizia que sim, gritava.

Tive de assumir e descontar no orçamento.

Nunca o vi, não sei quem é.

Talvez casasse ou morreu já, como ela.

Eu casei e estou morto há muito.

Aturamo-nos.

Não há rancores, desilusão.

Um olhar insatisfeito e triste resta

E o peso breve dos anos.


01/05/1988



XI


O tempo de amar terminou.

Veio o calor e adormeci

Com gaivotas brancas a dançarem

No extremo do cais.

Um domingo à praia apanhar banhos de sol

Que os de água já não são para a idade.

A mulher também veio

E regala-se à conversa com a vizinha,

Uma asquerosa da barraca ao lado.

Falam de croché e camisolas de lã.

Há que prevenir: ao calor sucede o frio.


O mar jorra frescura

E eu recordo dentro de mim

Um miúdo a brincar com as ondas,

Gritinhos de alegre maroto.

Amavam-se os pais, eles amavam-nos.

Agora sou eu pai.

Onde estão os filhos?

Cresceram, são do mundo.

Um espectro intolerável de velho

A ver a vida a esquivar-se muda.


As crianças atraem-me.

Mas quando quero esvai-se-me a coragem

De pegar ao regaço uma

E festejá-la como um avô ao neto.


O sol acaricia-me a testa nua.

Sou falho de cabelo

Não de tino e da força que faz pensar.

A juventude cercava-me a fronte

E o dia era como hoje.


Minha esposa, a minha amada,

Corríamos os dois pela areia descalços,

O primeiro beijo dei-lho ao pôr do sol,

Abrasara-nos o fogo da praia.

Por que penso e por que minto

A este coração de trapos?

O tempo de amar terminou.

Sobra uma saudade,

Única lembrança que me faz suspirar.


07/07/1988




XII


Ando comigo às costas

Como quem carrega um fardo

De demasiado peso para as suas forças.

Passar o fardo a outrem

Ou largá-lo à valeta do caminho

A ver se alguém o leva

Chamar-lhe-iam fraqueza.


Um velho carrega o seu e vai de besta

Memorando tropeços planuras

Que a vida trouxe e arrastou o tempo.



XIII


Farto farto fartíssimo!

A infância no sótão

Juventude no bolso arrumada

A caminho a velhice

E um azedo no trato.

Cansaço fadiga a vida

Raiva as pessoas.

Viver sozinho tem as suas vantagens

Desvantagem é a mistura

De cabeças contrárias

Gostos diversos inconciliáveis.

O leopardo corre as savanas

Solitário e feliz.

Para quê os amigos

Esposa amante filhos?

Nasce-se só

– Quando não há gémeos –

E assim se morre.



Poesia das Mãos Fechadas



Si vous voulez que je vous aime, rendez-moi l’âge des amours.


Mme de Staël



Encontrei um ninho de ratos

Medrosos numa perna das calças

Guardadas no armário

Do quarto onde durmo

E passo as noites de insónia.


Tive pena dos bichos,

Mandou-me contudo o bom senso

Lhes desse um radical tratamento.

Fugiu a mãe assustada,

Esmaguei os filhos franzinos.


Roídas as calças de ganga

Estrebuchei de raiva felina.

Fazerem-me ninho na testa

E rirem-se deste palhaço

Que tem nome de gente?


8/8/88



Sou teu sem ser meu.

Rigorosamente esqueço

A lâmpada que me iluminou

E há muito me abrasou.


Uma cana de pesca

Que não pesca por de trás da porta

Esqueceu-a o homem velho

Que já não sabe pescar.


A roupa suja meti-a num saco

Para que não incomode.

Mas o saco está roto

E exala o cheiro a suor.


A roupa suja és tu,

Porque eu esqueço e não esqueço,

Estou livre e correntes fortes

Prendem-me à vida.


Sou o homem velho

E a cana de pesca é o amor

Que já não pesca.


13/8/88



Dizem que estou doente

Mas eu não estou doente.

Perturbado sim, porque estou longe.


Bate-me o coração intranquilo

E as faces brancas

Destoam-me o charme.

Desliguei o mundo de mim,

Que hei de fazer no meio da praça?


Voam pombas à roda,

Não sei aonde é o Norte

Ou a coragem de partir

Até ao vento que sopra

No interior da terra.


Dizem que estou doente.

Estou doente porque me deixaste,

Porque eu te deixei.

As pombas da praça vejo-as voar

E agarro-me ao chão.


18/8/88



Recobrar o rumo que não segui,

Amanhecer tranquilo

Num gesto de quem sonha

As estrelas sobre as mãos.

A árvore mais alta faz sombra

E o passado está morto.

Hoje é outro dia,

Guardo na mala os trapos velhos.


Nasceu-me uma ideia brilhante.

Pegar num barco sem motor

E remar pelos meus pensamentos.

Quem sabe encontrarei ilhas

Que ninguém explorou?

A grande ilha que eu sou

Ligada a ti

Será uma península de amor.


29/8/88



Tem espuma branca o pico do monte.

O meu espírito cansado

Diz que não é fácil

Ressurgir de um fumo de cinza

E deleitar-se na vida.

A vida é boa para quem não pensa.

As mentes atribuladas

Na sabedoria que nunca alcançam

Perderam o sentido.

A direção dos simples

É a que está certa e conduz.

Tem espuma branca o pico do monte,

Por que não flutuo?


6/9/88



A noite no cais soturno:

Dois namorados a beijarem-se,

Um banco de jardim vermelho

E eu sentado nele.

Um lampião aceso dá luz

Para um cachorro que dorme ao pé.


Ninguém vê porque ninguém existe

Do outro lado da rua.

Tenho-me num céu de estrelas

E os namorados sobem à lua.

O cão sonha num osso que enterrou

Junto ao muro da casa.


A árvore frondosa esconde-me ao mar.

Os barcos atracaram todos

E o lampião brilha para aquele longe

Onde penso estar agora.

Queria partir sobre os meus pés

E ver daí o cachorro dormindo.


As solas gastaram-se e não sei nadar.

Como náufrago em ilha deserta

Espero a remessa de ovos frescos

E atum de conserva.

O peixe anda contaminado

E as galinhas não põem ovos.


Condeno-me por trazer o impermeável.

Não chove, não venta, onde está o frio?

Já não basta o meu espectro,

Ainda carrego roupa inútil?

O banco vermelho de jardim

E eu nele a tiritar de pensamentos.


8/9/88



O ferrolho da porta mostra um pato

Com um peixe na boca à tona da água

Para me inquietar e fazer-me esquecer

Das misérias derretidas à luz da noite,

Um petisco da loucura que não tarda.

Recrudesce indolente uma ira divina

No fogo do braseiro que aquece a sala.


A Fénix renasceu e eu tenho os olhos vendados

Para não ver o livro da vida aberto

À frente dos mundos para lá das estrelas

E dos sonhos dos homens sensatos.

Os ponteiros rodam e a maquinaria

Bate compassada as horas da brisa que foi.

Escondi a fronte nas mãos do crime.


Matei o meu amor quando a cegueira

Me guiou por sendas impenetráveis

E me convencia de que era fácil vencer.

Os atalhos levam sempre à estrada larga.

Aquele levou-me aos espinhos e perdi-me.

Atolei-me em vinho e vómitos

De velhos bêbados e crianças com azia.


Leite branco e doce na chávena florida;

Açucena branca e pura na jarra vidrada;

O perdão que desejo no bule de ferro;

Rosa murcha e triste ao canto da mesa;

O estado que me vibra e mata o peito.

O fogo consome, cheira a dor, cheira a amor.


21/9/88



Faço ouvidos de mercador ao meu espírito.

Um poste elétrico é vertical como a razão,

Alumia os becos, as esquinas à noite.

Gosto da escuridão fria como de uma maçã

E fujo da luz como o diabo da cruz.

Assim tenho pensamentos escuros

Que me fazem lembrar o que fui.


O meu espírito quer a luz benfazeja,

A verdade intrínseca de todas as coisas.

E daí que eu atine em escapar-me

Para a obscura noite das minhas ruas

E dos guetos fedorentos e sujos de porcaria,

Aquela porcaria de que afinal sou feito.


22/10/88



Círculos e quadrados transparentes,

As pedras sem nada sem pó sem dó

Vendo a passagem das horas dormentes

Um agudo grito na ponta do apito

Acordo tremendo do jogo da vida.


Li um livro que falava de ti

Não de mim porque passo de fugida.

Falava dos dois num oceano dourado

E num espelho vi-me a ler-te a boca

De mel e fel a queimar-me os ouvidos.


Por que tão neutral sou e desgraçado

Quando respiro o aroma e os suspiros

Das flores do céu no sonhar das estrelas?

Que me interessa a fama e as coisas belas

Se a morte é já ali no virar da esquina?


Limpo ao rosto o lenço de seda

Para repousar a testa molhada

Pelo sol e as dúvidas que fervem,

Os escolhos que já não servem

No espírito ausente da longa estrada.


31/10/88



Gela-me o corpo sob a chuva.

A alma há muito que é gelo,

A água escorre-me do cabelo,

Fecho os olhos para não ver.


O saco de viagem perdi-o na gare

De um país distante qualquer.

Visto sapatos e calças de aluguer,

Pus bigode e óculos do sol.


Agora não me reconheço ao espelho.

Deixei de pensar vermelho

E negro que ensombra a mesa

Dos meus propósitos dourados.


O céu vai caindo aos bocados,

Acabei com tudo o que é certeza,

Guardei saudades e dúvidas,

Gelado ganhei a tristeza.


5/11/88



Quando o meu amor vem

E eu estou entretido a pensar

Afaga-me o rosto

De mansinho, com ternura.

Mas eu sou uma pedra

E não lhe dou importância.

O meu espírito estéril prefere

As grandes ideias sobre

O que não interessa a ninguém.


Dois periquitos choram

Num coro de missa de requiem.

Prendem-nos as grades de arame.

Eu olho-os contente

Por serem eles presos e não eu.


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